Final de Semana em Família – Overdose Psicológica

Hora do almoço, sento no meu lugar de sempre na mesa e espero até que todos se acomodem para começar a me servir e sentir um pouquinho de prazer nesses dias de descanso.

Minha mãe está impecável, uma calça justa cinza chumbo, blusa de linho amarela mais solta, colar de pedras marrons comprido e seu spiller marron, isso sem falar no seu cabelo e maquiagem. Ela sabe ser elegante mesmo em um almoço em família. Minha irmã segue a mesma regra mesmo com 2 filhos ela continua simplismente linda! Meu pai é mais tranquilo com a aparencia, mas minha mãe não permitiria que ele aparecesse de bermuda e camiseta em uma ocasião dessas, então ele está todo elegante parecendo um jogador de golfe. Ela também exerce esse poder sobre mim, me arrumei a seu gosto e me maquiei como há muito tempo não faço.

Começo a comer meu gnocce recheado, adoro esse prato, me lembra a infância… Cheiro de molho de tomate e bincadeiras à beiramar, quando surge a pergunta “Como está sua vida amorosa?” Quase engasgo, “como assim? Que invasão é essa?” Mas mamãe não entende o recado, do meu engasgo, e espera paciente pela resposta. Quando falo que continua igual, todos me olham com piedade, e tenho que lembrar que estou feliz, trabalho no que gosto, prático esporte e que nada é melhor do que chegar em casa e encontrar o silêncio.

Detesto ser o assunto da mesa! Clara, minha irmã, vem em meu socorro e começa acontar as últimas gracinhas e peripercias dos meus sobrinhos. Sorrimos em cumplicidade. Quando eramos crianças, mesmo sendo a mais nova, ela me protegia do controle e dos excessos de nossa mãe.

Desde que Clara se casou e eu fui morar sozinha minha mãe instituiu o almoço em familia, um evento similar ao Natal. Passamos um final de semana em nossa casa de praia ocupando nossos antigos quartos de meninas e revivendo nossas vidas de meninas que não nos cabe mais. Cada um tem que fazer um prato para as refeições.Tem até presentes no final do domingo. Tudo orquestrado pelo bom gosto de mamãe.

Saiu dos meus devaneios com minha mãe me oferecendo mais comida e recuso dizendo educadamente que estou satisfeita. Ela me olha como se pudesse ver minha alma e sorri falando docemente que eu preciso me alimentar melhor e que minha magreza já deixou de ser bonita. Respiro fundo e pego mais um pedaço de carne.

Depois do almoço vamos à praia, adoro esses momentos de meia solidão, fico vendo o mar e penso na Casa Amarela. “O que será que tem ali? Quem será que mora lá?” Meus sobrinhos estão correndo e jogando areia e água em todo mundo, minha irmã se joga ao meu lado e me olha, já sei que ela descobriu meu segredinho. Conto sobre os recentes acontecimentos da Casa, ela me olha chocada como se falasse “Vai acontecer tudo de novo!”. Tento traquiliza-lá que não sou mais uma criança, embora continue curiosa, tenho meus compromissos e nem tenho tempo para qualquer outra coisa.

Um de seus filhos a chama, por sorte, Clara me lança seu olhar mais controlador e ameaçador. Sei que nossa conversa não terminou.

Me jogo na areia e fecho os olhos para a imensidão azul do céu. Gosto desses encontros me sinto acolhida, é como voltar no tempo. Nada mudou, minha mãe continua a controlar tudo, inclusive eu, como pode? Meu pai prefere ler um jornal à se colocar e acaba aceitando tudo de todos e minha irmã, minha cumplice e amiga ainda me acha meio esquisita. Já desejo a liberdade da minha casa, mas ainda tem a troca de presentes. Respiro fundo e me aproveito do ar marinho que chega até mim.

Beijos
Sabrina

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