Criança Curiosa

Estou à caminho da escola quando paro em frente a casa e me perco em sua movimentação. É a segunda vez que vou para escola sozinha, me sentindo muito dona do meu nariz, no auge dos meus 10 anos.

Todas as vezes que mamãe me leva para a escola ela não me deixa ficar parada, na verdade ela faz outro caminho para não passarmos em frente a casa. Ela me chama atenção dizendo que eu a faço passar vergonha, pois fico parada como uma estátua em frente das casas e das pessoas onde quer que estejamos.

Como ela não consegue entender? Adoro ficar observando o movimento das casas. Fico pensando O que estará acontecendo lá dentro?”, “Será que alguém brigou?”, “Será que hoje é um dia bom?”, “E se eu morasse aí?”, “E se eu entrasse?”, “Seria pega ou aceita? Quando contei isso mamãe logo disse “Ehhh Sabrina sabida!! Pare de bobagem! Não tem como você ter nenhuma dessas respostas… Onde já se viu? Por acaso você não gosta da vida que tem?”.

Enquanto as palavras de mamãe passam pela minha cabeça, meu corpo obedece meu coração curioso. Vou entrando pela garagem, que naquele horário fica aberta com um carro ligado, vou contornando o carro abaixada para que o motorista não me veja. Paro no pé de uma escadinha que de um lado dá para o jardim do outro para uma entrada lateral da casa. Meu coração parece que vai estourar meu peito. Sinto uma mistura de felicidade e medo.

Escolho sair pelo jardim para me manter escondida, mas ao me virar estou no meio de um gramado enorme quase sem fim. Em desespero corro para a casa. Ufa! Começo a andar grudada na parede até encontrar uma porta de vidro imensa. “Como vou passar por ela?” minha mochila começou a pesar, escondo-a entre dois vasos grandes perto da porta e entro na casa.

Parece que não tem ninguém. Ela é muito maior e mais bonita do que eu imaginava! No sala que entro tem três jogos de sofás que formam pequenas salas. Parecem macios…. Do lado esquerdo começa um corredor muito amplo e iluminado. As paredes são de vidro e dá para ver o gramado lá fora!!

Meu Deus!! Por que as portas aqui são tão grandes? Passo por uma sala espaçosa que parece um escritório. Entro, é tudo cinza e tão sombrio que me dá medo… Continuo no corredor e a próxima porta é de uma biblioteca gigante!! Só tinha visto uma parecida em filme. Alias me lembra a biblioteca da Fera da Bela e a Fera. Poltronas vinho, grandes e confortáveis, uma mesa perto da janela e um divã. Procuro por fotos, mas ainda não encontrei nenhuma.

O corredor acaba em uma sala de jantar esplêndida com as três parede de vidro com vista para um belo gramado e uma piscina ao fundo. Escuto vozes… Saio correndo até a sala e subo as escadas. Nossa!! Meu coração está a mil!! Como ninguém veio atrás de mim… Começo a perceber que por aqui estão os quartos e a contar pelo número de portas são muitos, uns 5…

Vou caminhando com mais cuidado, vai que tem alguém dormindo… Os primeiros quartos estão com as portas entre abertas e são simples cada um com uma cama de casal, acho que são de hóspedes “será que eles recebem muitas visitas?”, “Família ou amigos?” As outras portas estão fechadas. Encosto o ouvido na porta e não escuto barulho. Coloco a mão a maçaneta respiro fundo e viro. É um quarto de bebê! Todo branco com um berço no meio vários brinquedos. Tudo tão arrumadinho que parece que não foi usado. “Por onde será que anda esse bebê? – Será que ainda não nasceu?” Vejo uma prateleira com algumas fotos, “finalmente!” São três fotos todas do mesmo bebê Azul! ” Como assim?” O outro quarto é de uma jovem bem arrumado e com um mural cheio de fotos. A menina que aparece em todas as fotos não é azul, “então eles não são de outro planeta ainda bem!” Ela é bonita loira, olhos grande e está sempre sorrindo.

Sinto cheiro de comida deve estar perto da hora do almoço e eu estou faminta, o último quarto está trancado. Decido ir embora, já vi bastante… Começo a descer a escada e me lembro da piscina, “como será atrás da casa?” Resolvo verificar, afinal já estou aqui mesmo.

Atrás da casa é um clube, com tudo o que se tem direito. Piscina, sauna, salão de jogos e sala de ginástica. Vou chegando mais perto da sala de ginástica e nesse exato momento uma mulher muito parecida com a menina das foto me vê. Ficamos congeladas pelo nossos olhares, sem piscar… Ela se mexe primeiro e eu saio correndo como uma louca “O que vou dizer? O que vou dizer? O que vou dizer?”

Quando chego na porta para pegar minha mochila dou de cara com um homem, que me pega pelo braço e me leva para a sala. Lá dentro a mulher esbraveja “Você invadiu minha casa!! Queria roubar algo sua delinquente?” Outra empregada que parece uma governanta intervém ao meu favor “Calma senhora. É só uma menina e está com o uniforme do Colégio da rua de baixo. Podemos leva-la até lá.” A mulher me olha da cabeça aos pés e sentencia: “Vou chamar a polícia!” E sai da sala em direção ao escritório. Fico parada, de boca aberta sem pronunciar uma palavra, olhando os pés de todos e  pensando em minha mãe…

Sabrina

Anúncios

Final de Semana em Família – Overdose Psicológica

Hora do almoço, sento no meu lugar de sempre na mesa e espero até que todos se acomodem para começar a me servir e sentir um pouquinho de prazer nesses dias de descanso.

Minha mãe está impecável, uma calça justa cinza chumbo, blusa de linho amarela mais solta, colar de pedras marrons comprido e seu spiller marron, isso sem falar no seu cabelo e maquiagem. Ela sabe ser elegante mesmo em um almoço em família. Minha irmã segue a mesma regra mesmo com 2 filhos ela continua simplismente linda! Meu pai é mais tranquilo com a aparencia, mas minha mãe não permitiria que ele aparecesse de bermuda e camiseta em uma ocasião dessas, então ele está todo elegante parecendo um jogador de golfe. Ela também exerce esse poder sobre mim, me arrumei a seu gosto e me maquiei como há muito tempo não faço.

Começo a comer meu gnocce recheado, adoro esse prato, me lembra a infância… Cheiro de molho de tomate e bincadeiras à beiramar, quando surge a pergunta “Como está sua vida amorosa?” Quase engasgo, “como assim? Que invasão é essa?” Mas mamãe não entende o recado, do meu engasgo, e espera paciente pela resposta. Quando falo que continua igual, todos me olham com piedade, e tenho que lembrar que estou feliz, trabalho no que gosto, prático esporte e que nada é melhor do que chegar em casa e encontrar o silêncio.

Detesto ser o assunto da mesa! Clara, minha irmã, vem em meu socorro e começa acontar as últimas gracinhas e peripercias dos meus sobrinhos. Sorrimos em cumplicidade. Quando eramos crianças, mesmo sendo a mais nova, ela me protegia do controle e dos excessos de nossa mãe.

Desde que Clara se casou e eu fui morar sozinha minha mãe instituiu o almoço em familia, um evento similar ao Natal. Passamos um final de semana em nossa casa de praia ocupando nossos antigos quartos de meninas e revivendo nossas vidas de meninas que não nos cabe mais. Cada um tem que fazer um prato para as refeições.Tem até presentes no final do domingo. Tudo orquestrado pelo bom gosto de mamãe.

Saiu dos meus devaneios com minha mãe me oferecendo mais comida e recuso dizendo educadamente que estou satisfeita. Ela me olha como se pudesse ver minha alma e sorri falando docemente que eu preciso me alimentar melhor e que minha magreza já deixou de ser bonita. Respiro fundo e pego mais um pedaço de carne.

Depois do almoço vamos à praia, adoro esses momentos de meia solidão, fico vendo o mar e penso na Casa Amarela. “O que será que tem ali? Quem será que mora lá?” Meus sobrinhos estão correndo e jogando areia e água em todo mundo, minha irmã se joga ao meu lado e me olha, já sei que ela descobriu meu segredinho. Conto sobre os recentes acontecimentos da Casa, ela me olha chocada como se falasse “Vai acontecer tudo de novo!”. Tento traquiliza-lá que não sou mais uma criança, embora continue curiosa, tenho meus compromissos e nem tenho tempo para qualquer outra coisa.

Um de seus filhos a chama, por sorte, Clara me lança seu olhar mais controlador e ameaçador. Sei que nossa conversa não terminou.

Me jogo na areia e fecho os olhos para a imensidão azul do céu. Gosto desses encontros me sinto acolhida, é como voltar no tempo. Nada mudou, minha mãe continua a controlar tudo, inclusive eu, como pode? Meu pai prefere ler um jornal à se colocar e acaba aceitando tudo de todos e minha irmã, minha cumplice e amiga ainda me acha meio esquisita. Já desejo a liberdade da minha casa, mas ainda tem a troca de presentes. Respiro fundo e me aproveito do ar marinho que chega até mim.

Beijos
Sabrina

A Casa Amarela

Enquanto desço a rua no caminho de volta para casa, da minha caminhada diária, fico imaginando o que encontrarei na próxima esquina se hoje consigo ver alguma coisa nova que me revele algo sobre seus moradores.

Lá está ela bem na esquina, toda imponente, misteriosa e amarela. Diminuo o passo para ganhar tempo e observo cada detalhe mais uma vez. Muro alto todo amarelo entrecortado por um jardim de inverno, que da para um corredor e uma saleta (eu acho porque vejo um sofá). Além das plantas o muro e toda a esquina são rodeados por carros e motos sem nenhum logo ou qualquer coisa que pareça.

No final da esquina, quase junto com a casa, tem uma pequena praça como não tinha nada na saleta fiquei procurando algumas flores e galhos secos, só pra fazer hora. Eu até alonguei ali outro dia, mas foi estranho e as pessoas dos carros ficaram me olhando… Enfim pegar flores é menos constrangedor.

E foi durante esse devaneio que chega um carro sport branco, um BTX? se isso existe, embicando no portão, escondido, da garagem que dá de frente para praça (sorte pura! Eu não sabia que ali era a garagem ele é realmente camuflado /). O carro que estava vindo bem atrás para o trânsito e descem 3 homens, normais com roupas marrons, de forma sincronizada olhando para todos os lados e seguindo para a casa amarela.

Nisso a garagem se abre e o carro entra. Tudo isso foi tão rápido que consegui ver apenas um caminho de pedra que leva para uma garagem que fica embaixo de um dos lados da casa. Do lado esquerdo tem um gramado cercando toda a casa que tem portas de vidro enormes. E meu olho conseguiu alcançar na descida do gramado uma piscina.

Então levei um susto, alguém me tocava no ombro, era um dos rapazes que desceu do carro e começou a me perguntar se eu precisava de alguma coisa, só então percebi que estava a um palmo da entrada do portão. Dou um sorriso amarelo e saiu andando pedindo mil desculpas e retomo meu caminho.

O que será que tem lá dentro? É um bairro residencial, mas essa casa é fora dos padrões sempre com tantos carros e motos parados, parece que tem mais movimentação de empregados do que de moradores…

Ai, ai, ai.. se minha mãe descobre ela me mata!! Preciso parar com essa mania de criança de achar que cada casa guarda sua história… Acho que estou precisando é de férias.

Bjs
Sabrina

Noite Fria…

Adoro chegar em casa e encontrar a TV desligada, o rádio apagado e a revista no sofá aberta na página que deixei. Nada é mais reconfortante do que o silêncio e a escuridão do meu lar!!

Mas, hoje eu gostaria de ter alguém para deitar no colo e dividir a janta. Meu dia foi tão cheio e estressante que uma companhia seria bem vinda. E me dou conta dessa vontade quando estou fechando a porta de casa e meu telefone toca, com um sorriso no rosto, começo a procurar desesperadamente dentro da bolsa. Quando vejo o identificador de chamadas piscando Valdete, uma das minhas clientes mais pegajosas e dependentes.

Respiro fundo e me jogo no sofá para atendê-la e vou folheando a revista enquanto ela me conta de sua nova aquisição, um espelho colonial, e sua necessidade de uma orientação, já que escolher onde colocá-lo pode mudar a energia do lar. E eu fico naquela de dizer que a casa é dela e que basta ela se equilibrar para que seu lar fique em harmônia. Ela porém, não escutou nada do que eu disse e continuou falando da moldura em patina e da importância de colocar um espelho no lugar certo.

Quando desligo o telefone fico deitada jogada ali sem forças para ligar a luz. Fiz tantas massagens, equilibrei tantos shacaras, escutei tantas histórias que estou exausta. Passou até a vontade de ter alguém.

Consigo juntar forças para tomar banho, bem quente, e demorado o celular toca novamente olho para o identificador e é a Valdete outra vez, mas agora ela terá que resolver seus problemas sozinha, pois eu me recuso a atender, fim de expediente!

O mais difícil desses dias cansativos é comer e dormir, pelo simples fato de não ter disposição para cozinhar, então como kinojo macarrão instantâneo, e dormir sozinha é um suplío, então fico assistindo séries até cair no sono.

Será que minhas clientes continuariam comigo se soubessem que também tenho problemas e que tenho a TV como companhia para dormir? Sei lá é estranho pensar em um dentista banguela ou em um endócrino gordo… Enfim, eu sou gente!

Abraços

Sabrina